Bem-vindo, Natal!
Ela caminhava sem pressa em meio ao burburinho de gente indo e vindo. As sacolas cheias ricocheteavam em seu corpo, continuando seu caminho rumo aos presépios e árvores de natal. É noite, e as luzes e enfeites natalinos emprestam uma atmosfera mágica e surreal.
Está sozinha e, no meio dos sorrisos anônimos e algazarra de crianças, não consegue se contagiar pelo bom humor aparente, apesar de manter um sorriso nos lábios. Serão lembranças de outros natais felizes, que congelaram em outras fases da vida, ou de natais melancólicos que ela nem lembrava mais? Uma árvore solitária num canto da sala vazia, uma ocarina solo tocando Noite Feliz.
Uma banda começa a tocar alto. Um rock metálico invade os ouvidos, e todos os outros sons emudecem. Ela acorda da letargia e lembra do que veio comprar – um par de sandálias brancas com plataforma beje, talvez cortiça, talvez imitação. Olha para a vitrine repleta de todo tipo de sapatos e sandálias e ali está a sandália esperando por sua dona.
Mas também estão lá, a sandália de dedo em couro amarelo, que sua mãe havia preferido em vermelho, a casa de bonecas, o triciclo enorme, o bebê grande de louça, o pianinho cor de rosa, a maquininha de costura, a boneca que anda, com seus longos cabelos de náilon louros e seu vestidinho de renda, a bola de borracha do Mickey com seu cheiro adocicado de chiclete. Ainda sentia este cheiro, agora misturado ao do carrinho de cachorro-quente ao lado.
Sorriu ante estas imagens. A nostalgia se dissipou, e ela alegremente desejou boas festas à vendedora solícita, que a encaminhava ao caixa. E partiu lépida para preparar mais um Natal.



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